As pessoas nos diziam: temos que fazer igual, temos que lutar

Em julho, os mineiros das Astúrias, região autônoma do Estado Espanhol, protagonizou uma marcha de 500 km até Madri, protestando contra os cortes na subvenção da extração do carvão. As cenas dos mineiros entrando na cidade e sendo recebidos por dezenas de milhares de pessoas marcou para muitos a entrada da classe operária nas mobilizações multitudinárias contra a crise que assola a Europa.

O Portal do PSTU entrevistou o mineiro José Gonzalez Marin, do Sindicato Independente CSI (Corriente Sindical de Izquierdas), que esteve no Brasil a convite da CSP-Conlutas. Marin trabalha na mineradora estatal Hunosa e falou sobre os ataques do governo, o papel das centrais CCOO (Comisiones Obreras) e UGT (Unión General de los Trabajadores) e os protestos radicalizados dos mineiros.

Portal do PSTU – Qual é a situação dos mineiros nas Astúrias?

José Gonzalez Marin A mineração pública nas Astúrias chegou a ter 30 mil trabalhadores. Mas a partir do PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol) e da sua política energética, fomos ao desastre. Vieram planos que sempre culminavam na redução de custos, trabalhadores e subvenções. Com o último corte, em 2000, passamos de 18 para 12 mil operários, e vieram mais planos e ‘pré-aposentadorias’, sempre com a conivência da UGT e Comisiones Obreras, meros sindicatos mercantilistas que se preocupam apenas com seus privilégios, como sindicalistas profissionais. Esses sindicatos fizeram desaparecer o sindicalismo de classes, acabaram com as assembleias e impõem as decisões de cima para baixo. Então, com isso, agora mesmo em nossa empresa contamos com apenas 1600 trabalhadores. Antes, na época de bonança, tínhamos grandes empresas metalúrgicas. Hoje, essas empresas foram embora, para outras regiões. É o que acontece quando esses especuladores capitalistas vêm de fora e, ao invés de criar postos de trabalho e bem-estar, vem apenas para enriquecer-se. E depois vão embora com a mínima oposição que enfrentam com qualquer tipo de reivindicação salarial. Então dependemos hoje da pouca mineração que restou.

Qual a razão das recentes mobilizações dos mineiros?

A questão é que nós, mineiros, sempre fomos, pelo trabalho que realizamos, muitos dependentes um dos outros. A vida de um muitas vezes está nas mãos de um companheiro. Então, era raro que em algum mês não houvesse conflitos em relação à segurança. Mas agora a luta surge não apenas por reivindicações econômicas ou de condições de trabalho. Estamos defendendo 4 mil postos de trabalho na mineração pública e privada, mas também outros tantos empregos indiretos. Então temos que apostar todas as nossas fichas. O sindicato que faço parte reivindica a nacionalização do carvão, pois os empresários da mineração privada só querem sugar as subvenções, criar salários de escravidão, mais ainda que no setor público.

E como começou a greve?

O carvão é subvencionado, tanto na mineração pública quanto na privada, embora muito menos que as energias alternativas como a eólica, solar, a gás… Com a particularidade que o carvão é uma matéria-prima nacional, ou seja, não dependemos de alguém que em qualquer momento possa fazer alguma atrocidade. O plano do governo para a mineração, que ia de 2008 e 2012, acabava agora e faltava o governo pagar uns 300 milhões de Euros. Desse total, cortaram 60% do dinheiro. E o governo só admite discutir um novo plano para 2013 a 2018. Aí não adiantaria mais, pois esses trabalhadores não teriam mais seus postos de trabalho. Os sindicatos, então, tiveram que apostar todas as suas fichas, porque se as minas fecham eles perdem seus privilégios, seria uma sangria desses sindicatos que vivem para ser sindicatos de serviços. Eu pessoalmente respeito muito todas as organizações que meus companheiros fazem parte, mas a CCOO e Soma-UGT (Sindicato de los Obreros Mineros de Astúrias) fazem ações unilaterais e divisionistas. Observa-se isso nas manifestações, há uns com camisetas negras e outros com camisetas verdes. Na própria marcha a Madri não se podia ir voluntariamente. Só trabalhadores escolhidos pela cúpula da Soma e CCOO, indicados por nome e sobrenome. Apontavam: ‘você, você e você’. Não deixavam mais ninguém participar.

E qual a posição do Sindicato Independente frente a isso?

Nosso sindicato defendia fazer lutas escalonadas e, com o tempo, ir endurecendo, sempre pretendendo a unidade dos trabalhadores. Utilizar a ferramenta que sempre foi utilizada na mineração, que é a assembleia dos trabalhadores. Era o que deveria ser a forma de decisão. Sempre demonstramos solidariedade com os nossos companheiros, apoiamos todas as ações e, mesmo com essas divergências, sempre nos somamos à luta. E por outra parte, estamos vendo a realidade que há nas Astúrias, na Espanha e no mundo. Astúrias é um verdadeiro ninho de conflitos. Há redução de salários dos funcionários da Saúde, Educação e em todo o setor público. É raro o dia em que não tem uma manifestação na rua. Então, o que tinha que fazer no nosso ponto de vista? Tinha que juntar todos esses trabalhadores. Porque não é o mesmo 4 mil de 400 mil. E o inimigo é muito forte, porque é o mesmo inimigo no mundo todo. São os grandes bancos que querem acabar com todas aquelas conquistas que os trabalhadores tiveram nos últimos anos. Juntar todos os conflitos e buscar uma saída global. Porque o problema é global.

Podemos dizer que nas Astúrias, e em Madri, a luta dos mineiros está sendo de certa forma um catalisador desse descontentamento?

Normalmente, através da história na Espanha, os mineiros com suas atuações foram uma alavanca sobre os demais trabalhadores. Agora mesmo em Madri, há muitos empregados públicos. São categorias profissionais que acreditavam que nunca seriam atingidos, que acreditavam na panaceia do Estado e que agora foram golpeados de frente. E vieram os mineiros, eles os receberam, e nos congratulamos muito e diziam ‘temos que fazer igual, temos que lutar’, porque se não lutamos não fazemos nada. E, moralmente, foi como um balão de oxigênio ver esses companheiros com esse impulso, essa solidariedade, foi uma motivação pra dizermos: ‘não estamos mortos, estamos aqui e podemos fazer algo!’. Desde o nosso ponto de vista, gostaríamos que no próximo dia 26 ocorresse uma greve geral em todo o país basco, que confluísse a uma greve em toda a Espanha. Mas a realidade é que esses dois sindicatos, a UGT e CCOO, como são sindicatos meramente mercantilistas e não querem reconhecer a força que podem ter outros sindicatos como na Catalunha, no País Basco, em Galícia, não querem reconhecer que existem outros sindicatos e outras formas de fazer sindicalismo. Nós, com as forças que temos, vamos fazer encontros intersindicais com outros sindicatos chamados ‘minoritários’ e, dentro da capacidade que temos, vamos convocar a greve onde tivermos condições de fazê-la e onde não tivermos vamos fazer manifestações, bloqueios, o que a gente decida.

Impressionaram as imagens das ações radicalizadas da greve

Essa repercussão nos impressionou. Pois lá realmente não saía nada na imprensa. Com a greve lá não tínhamos tanta notícia. Vocês tinham mais notícias aqui no Brasil que, por exemplo, alguém lá nas Astúrias. Mas já te digo, a força com que se fazem as mobilizações na mineração não é de agora. Os famosos foguetes que aparecem nos vídeos nós já utilizávamos toda vida. Sempre, não é de agora, nós somos bastante radicais nas ações, o porquê não sei, talvez pela própria idiossincrasia do trabalho duro, somos um pouco brutos. Creio que a patronal mereça esse tipo de resposta. Essas procissões bem comportadas como que dissessem ‘veja como somos bons meninos’, isso nós não concordamos. O governo e estes governos da Europa, que é a direita mais reacionária, necessitam de resposta duras, pois estão acabando com o Estado de Bem-Estar no mundo inteiro.

E como foi a marcha a Madri?
Emocionante, foram 500 quilômetros e durou duas semanas. Foi um sacrifício muito grande, porque afinal são trabalhadores, não atletas. Não participei da marcha, mas participei da manifestação. E emocionou a todos, ver entrando em uma grande cidade os mineiros com os capacetes e as lanternas acesas, e depois o grande protesto, as pessoas de Madri somando-se à manifestação. Foi como uma cena de filme. E até então havia uma letargia, havia medo, mas demonstrou-se que sim, podemos fazer. Mostrou que não podem nos tirar o direito de reivindicar. Temos que ter esperança, isso ninguém nos pode tirar. Mostramos o caminho aos demais setores.

Chamou atenção também a música que os mineiros cantavam, qual é a história dessa canção?

Santa Bárbara Bendita é como uma santa dos mineiros. A canção faz referência aos mortos do poço de Maria Luísa. É como um hino dos mineiros nas Astúrias. Seus versos dizem ‘Trago a camisa vermelha, de sangue de um companheiro, tralálálá” (cantando).